domingo, 26 de outubro de 2008

o óbvio através de nuances;

Eles haviam trocado a sensação de 'flutuar' e simplesmente não entender os fatos, algo que anteriormente consideravam surreal, por colocar definitivamente os pés no chão e procurar desesperadamente por uma saída disponível.
Era nítido que o que faltava em um, existia no outro; e que o futuro de um, era o reflexo imperfeito do presente do outro. Eles deveriam permanecer juntos, era o óbvio. Mas o medo ainda era capaz de impedi-los, de transformar todo o amor em um fim previsível.
E mesmo sabendo que era difícil fingir, e impossível esquecer. Escolheram a saída mais segura, esquecendo absolutamente tudo e fingindo que nada aconteceu!


Mariana Dandara;

sábado, 25 de outubro de 2008

Aqueles dias voltaram, e como sempre, se foram. E se o tempo realmente passa em uma aceleração descontrolada, e o passado jamais deixa de ser apenas passado, porque tais recordações sempre se fazem presentes? E se você prometeu voltar e ficar, mudando todas as consequências do nosso jogo, porque não volta?


Mariana Dandara;

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

desamor revisitado;

Ele chega com uma de suas novas jaquetas chiques e de longe eu vejo aquele cabelinho de banda suja londrina que eu tanto amei, aquela carinha infantil de “olha, cheguei” que eu tanto amei, aquele olhar de timidez tarada que eu tanto amei… e me pergunto: por que amei tanto e não amo mais?
Ele me aperta como sempre, até que algum ossinho da minha coluna estale, e me diz, como sempre também: “Que é que você tem que eu sempre largo tudo e venho te ver?”
Espreguiço para sugerir desinteresse mas meu coração bagunça tanto que tenho um ataque de tosse. Entramos de mãos dadas no cinema, felizes como se tivéssemos acabado de nos conhecer. Ele me olha sem parar, suspira, a cada movimento que eu faço, cada semblante, cada segundo de raciocínio, ele está lá me observando encantado. Faço um esforço pra tentar me lembrar: por que foi mesmo que eu deixei de amar esse homem? Não faço a menor idéia.
O filme é um lixo, master clichê, mas era o único que tinha e tudo bem: ao lado dele tudo fica divertido. A gente brinca de adivinhar as próximas cenas, adivinhamos o filme todo ao som de “shius” que os humanos limitados fazem, inconformados com aquele casal que tenta boicotar um filme tão supimpa.
Sobra pipoca no dente, colamos pipoca na testa, entra pipoca no sutiã. Cada vez que nossas mãos se encontram salgadas, dentro do saco, a gente brinca de se roçar com os dedos como pernas desesperadas.
Antes da gente chegar ao elevador do seu prédio, ele me oferece as costas e eu subo, o porteiro não entende nada, eu berro de longe: “Sou sobrinha dele.” Adoro essa brincadeira e mais uma vez me pergunto: onde eu estava com a cabeça pra deixar de amar esse homem?
Um banheiro é pra escovar o dente, outro é pra tomar banho e o outro é pra fazer cocô, ele explica. Sinto pena dele sozinho naquele apartamento gigante, quase quero ficar ali pra sempre. Ele mostra que tem todas as minhas músicas prediletas (que eu ensinei a ele) no seu iPod última versão, anda esbarrando pela casa em seus milhares de brinquedinhos e insiste para que eu assista a alguns dos seus vídeos caseiros cheios de bobagens. Ele é um super-homem quando a gente precisa e uma criancinha fofa quando a gente também precisa. Meu Deus, agora faço o maior dos esforços do ano: por que cacete deixei de gostar desse cara?
Chocolatinhos, vinho, som ambiente, escurinhos. Ele pára o mundo todo, se ajoelha no sofá deixando as mãos no meu colo: “Você não sabe a saudade que eu senti todo esse tempo.”
Seus olhos se enchem de lágrima, a música se torna instrumental matando qualquer outra palavra, a cidade não respira, o tempo não existe, a solidão é coisa de gente que mora muito longe dali, minha mente aquieta todos os monstros, as mulheres lindas nas capas das revistas são empilhadas descartavelmente e viram nada, a poluição vira oxigênio puro e cor-de-rosa, o outro homem que é dono sem merecer do meu corpo magoado explode no ar deixando apenas estrelas para iluminar meu recomeço, as dúvidas todas do que fazer pelos próximos mil anos se simplificam porque eu só desejo viver aquele momento, sim, sim, sim, eu quero zerar tudo de antes e de depois e amar esse homem agora, como antes, como nunca. Por que não?
Deitada sem forças e coragem para existir, eu quero tomar o banho mais urgente e demorado do mundo.
Ele agora está na sacada, olhando a cidade e coçando o saco, tentando pegar algum recado no celular, querendo marcar alguma coisa com algum amigo, fala alto, os carros buzinam e se xingam lá embaixo, talvez ele deseje mais do que tudo se virar e não me ver mais ali. A vida idiota voltou e me fez lembrar novamente que continuo uma idiota.
Sua enorme sala inteira chora, todas as plantas, todas as luzes apagadas, todos os CDs empilhados, o carpete caro e fofo, os cantos, o teto, o chão, o ar. Os feixes de luz da cidade entram como espada pela janela e guilhotinam qualquer razão, todo mundo está deitado e decapitado comigo. Todos estão sujos, todos estão ultrapassados e velhos, todos choram a intenção de amor que nunca dura.
A exploração do meu corpo me dá uma sensação mundana de morte pobre e simples, nada de espiritual e eterno ronda minha alma neste momento. Seus restos grudam em mim como tudo de ruim que gruda na nossa memória e nos faz viver cheios de medos e traumas.
Ele me observa frio e concluído da sacada, não se preocupa com o meu frio, com o vazio gigante que me toma novamente e me deixa assim, palidamente assustada e infantil. Ele até tem pena, mas me considera demais para ter pena de mim.
Ele anda mais completo, mais solitariamente feliz, mais homem, mais ereto, mais macho. Eu, corcunda, me enrolo na manta, corro para o banheiro como um bicho cagado, me ajoelho no chão do boxe e deixo a água quente me dizer que tudo bem: não é a primeira vez que você se sente tão perdida, usada, burra e sozinha.
Uso o banheiro do cocô para tomar banho, o banheiro do banho para vestir minha roupa que era feliz até duas horas atrás e agora parece escolhida para velar o defunto, e finalmente, o banheiro de escovar os dentes para mirar meus olhos traídos e esquecidos. Peço desculpas não aceitas a mim.
Antes de chegar à minha casa vejo que ele deixou dois chocolatinhos na minha bolsa, arremesso um deles com ódio na valeta da rua, o outro eu como, afinal, é sempre com a metade de tudo que eu fico porque ninguém nessa merda de vida consegue se dar e ser por inteiro.
Agora me lembro porque deixei de amar você, lembro exatamente porque deixei de amar todo mundo. Lembro que mais uma vez deixei de me amar.



Tati Bernardi.



Selo passado pela Jéssica, muito obrigada!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

que eu te esqueça!

Que eu desconstrua meus pequenos amores, a ciência de me deixar amar sem amargura, e que me dêem a enorme incoerência de desamar amando. E te lembrando - fazedor de desgosto - que eu te esqueça.



Hilda Hist.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

diário;

Ontem passei o dia mascando um silêncio, despindo sorrisos, comendo alguns livros, tragando caminhões, paquerando um sofá, assistindo um céu roxo, cozinhando meus amigos, parindo um suspiro, compondo um telefonema, cutucando o futuro, trabalhando um repouso, sonegando paixões, presidindo formigas, transando com músicas, convencendo meus cabelos, dançando com o chão, pavimentando o ar, aconselhando ondas, vingando as calças apertadas, saboreando o leite derramado, cagando uma fofoca, arquitetando meus sapatos, fugindo do rei, convidando as idéias e celebrando as luzes da rua.
Mas eis que hoje, de tanto mascar, o meu silêncio perdeu o gosto e eu resolvi despir as calças apertadas, parir uma luz, celebrar meus amigos, vingar meu cabelo, dançar num céu roxo (e assistir), presidir o futuro, compor meu próprio chão, aconselhar os livros, arquitetar as ondas, paquerar o rei, pavimentar o repouso, trabalhar as idéias, tragar o ar, saborear paixões, transar os sorrisos, cutucar as formigas, convencer os caminhões, sonegar as fofocas, cagar para os telefonemas, comer um suspiro com leite, pisar no sofá com meus sapatos, convidar as músicas, cozinhar tudo isso e depois fugir.


Luciana Elaiuy.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

sobre o seu desconhecimento da minha razão;

Existiam vestígios de um passado oculto onde eles estavam. Algo preservado em segredo, em uma espécie de caixa onde se guardam cartas, daquelas localizadas do lado de dentro, algo interno que apenas pertencia a ela.
- E eu ainda não fui capaz de compreender o porquê do nosso ponto final. – Ele sempre repetia.
- Existem certas verdades que meus lábios ainda não conseguem pronunciar, coisas que eu não sei como dizer olhando para você, talvez seja só questão de tempo. Tudo muda, não é?
- Pode ser.
Ele não entendia. Ela transformava suas palavras em enigmas, tentando fazer com que ele descobrisse tudo o que ela sempre deixava para contar no amanhã, ou quem sabe nunca. E de certa forma, ela acreditava em uma desconfiança que aparentemente ele mantinha.
Completamente iguais e nitidamente diferentes. Uma junção que sempre prometeu um encaixe perfeito, se não fosse a caixa escondida, o segredo guardado, o medo que a acompanhava. Fatores que por muito tempo ele se esforçou para destruir; visto que o parágrafo deles, que por vontade dela tornou-se um ponto final, não se transformava em pontos e vírgulas para reiniciar o que um dia começou.
Meses se passaram, e o distanciamento que surgiu entre eles, chegou ao fim. Iniciando novamente todos aqueles questionamentos. De alguma forma, já era capaz de presenciar em seus olhos, que ela sabia que o dia de abrir a caixa que guardava seus segredos se aproximava.
Pedidos negados, vontades escondidas, confusão nítida. Foi assim que se determinou por um tempo considerável as respostas dela, que por vezes demonstrava indiferença a ele, outras uma saudade incontrolável, tudo sempre acompanhado de uma dose de confusão.
Acabou, não existiam mais perguntas por parte dele, não havia mais insistência, não existia fragmento algum do que um dia ela pensou que não iria sentir falta. E foi aí que tudo o que era guardado, aparentemente seria completamente exposto.
- Lembra? Você insistia e sempre se importou em descobrir o que eu teimava em não revelar.
- É, você nunca esteve pronta para isso.
- Ainda não estou!
- Então porque me procurou?
- Apenas para não te deixar esquecer que independentemente do que eu não consiga dizer, existem palavras que sempre fogem de mim para chegar até você.
- Acredito que as desconheço.
- Então apenas as esqueceu, pois como sua insistência, eu sempre as repeti para você.
- Me faça lembrar então!
- Nada mudou, mas eu ainda amo você.


Mariana Dandara;

terça-feira, 23 de setembro de 2008

ruas vazias de você;


Gosto dessa sensação. De alguma forma o nosso fim me trouxe algo de bom. Já não reconheço todos aqueles sintomas de saudades que me consumiam. Nem mesmo as manhãs, que nunca foram as melhores, após sonhos meus onde você teimava em permanecer.
E então você surgia, com aquele seu jeito de encontrar minhas fraquezas para que eu voltasse a reconhecê-las. Afinal, você sempre soube onde elas estiveram, mesmo me conhecendo tão pouco. Suas afirmações me fizeram crer em mentiras, suas mentiras. Algo que deveria pertencer somente a você, mas que mesmo assim nunca foram mantidas contigo, passando a ser tão minhas quanto suas.
Então eu parei de esperar que, num desvio do destino, você me dissesse qualquer coisa que me fizesse entender, pois eu não entendia. Entender todos os teus motivos que te faziam me pedir para te esperar, e todos os meus motivos que faziam com que eu te esperasse.
Eu já posso enxergar onde foi que eu errei, e enxergo seus erros também! Acontece que um dia minha vontade chegou ao fim, aquela de te explicar que você errava, me magoava, mas eu te amava. E que por mais que eu acreditasse que era um sentimento recíproco, você sempre foi ocupado demais para demonstrá-lo. E então, eu apenas fiz o que você tanto me mostrou, apenas segui o caminho que você me ensinou a seguir. E não vou voltar atrás, nem ao menos parar em qualquer esquina para te pedir para voltar.


Mariana Dandara!


“ por você parei meu tempo, e por mim te deixo no passado ”