quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Esperava por cada amanhecer com uma ansiedade que me consumia. Você ia, e me deixava com o coração pulsando desesperadamente, de forma a sentir medo de que um dia seu jeito temporário de me esquecer e ir embora, se transformasse em definitivo. Meus sentimentos sempre foram a flor da pele, como uma menina melosa e romantica que a gente encontra nas páginas de alguns livros. Sempre foi o meu sonho poder transformar nossos momentos em magia, e quando você ia embora por um mísero tempo, eu poderia morrer, sem sentir nenhuma dor!
Meus dias sempre foram assim, e não existia nenhum sinal de que algo em você mudaria, para facilitar a diminuição de algo que passou a ser casual em mim, que eu classificava como o meu sofrimento, que não era nada além do que o reflexo de sua ausencia de preocupação com o que existia ou não em mim. E não passava muito tempo, você voltava. Com aquele seu sorriso que me fazia perder o rumo, e com suas frases feitas que me reconquistavam em questão de segundos. Nunca tive saída, era você chegar, que até mesmo o céu mudava de cor. E aquele cara despreocupado e irresponsável que eu conheci, era assim depois que ultrapassava a porta do meu apartamento; quando ia embora você definitivamente se transformava em alguém que eu não queria afirmar conhecer, alguém que me causava aversão. Mas quando você entrava e fechava porta, se sentava no nosso sofá velho, ligava o rádio e ouvindo nossa música, passava a canta-la, deixava escapar por um tempo considerável todos os defeitos que você mantinha depois que ia embora, depois que saia do nosso mundo, coisas suas.
Aos poucos fui me perdendo de você, até o momento em que você já não surgia em dias nublados para me roubar um sorriso, ou me lembrar como era estranho saber que existia algo em você que completava a parte que me faltava. E passou a ser inutil te buscar em minhas memórias, elas sempre terminavam com algumas doses de whisky, para tentar esquecer os fatos.



Mariana Dandara;

domingo, 2 de novembro de 2008

sobre o meu jardim de ilusões;

No verde dos seus olhos eu via cada mentira arder, como o meu coração ardia de desprezo por seus atos. Eu saí, jogando fora todo aquele amor inventado. E você ali ficou, fingindo se importar, tentando me fazer voltar, repetindo a frase que eu por diversas vezes quis acreditar. "Eu te amo, não do verbo amar, do verbo sentir"
Era extrema banalização para tão poucas palavras, era ilusão demais causada por uma só pessoa, e então você a dividia comigo. Você era quem iludia, eu quem acreditava. E assim seguiamos, você estabelecia o jogo, eu seguia todas as regras sem vacilar.
Você me protegia de tudo, do mundo, mas isso não bastava.. isso nunca bastou! Eu sentia o amor me absorver cada vez mais, mesmo sabendo que não deveria acreditar nas suas imensas palavras falsas. E mesmo estando comigo você não disfarçava sua plena dedicação a outras mulheres, algumas mais lindas do que eu, outras mais loiras, outras mais morenas e outras menos dependentes. O meu olhar, o meu corpo, o meu coração dependia de você!
Seus beijos poderiam me matar se fossem realmente verdadeiros. Eu sei que se você me amasse tanto quanto eu te amava, tudo iria ficar bem pra mim, e quem sabe você se sentisse feliz por estar comigo sempre ao seu lado!
Enquanto eu sonhava entre as tulipas do jardim, você desacreditava em tudo, em mim! Porém mesmo eu não acreditando que você só estava comigo por instinto humano, sabe, aquele instinto dentro da gente que diz que não devemos ficar sozinhos? então, você me tratava como um impulso da alma.
É, o MEU impulso fez com que eu lhe mostrasse o quanto você perdeu ao me perder. Depois de algum tempo eu ri ao perceber que quando se perde, realmente é quando começamos a dar valor, pois você insistia em declarar o seu amor por mim em alto e bom tom. E mesmo assim eu joguei tudo fora e percebi que depender de você era apenas uma ilusão que se agrupava aos meu sonhos no meu jardim de tulipas.


Mariana Dandara e Letícia S! ;*




Recebi de confusões de uma mente, muito obrigada!
Repasso para: o alcance da promessa , para descasos e delírios , e para identidades fragmentadas.


domingo, 26 de outubro de 2008

o óbvio através de nuances;

Eles haviam trocado a sensação de 'flutuar' e simplesmente não entender os fatos, algo que anteriormente consideravam surreal, por colocar definitivamente os pés no chão e procurar desesperadamente por uma saída disponível.
Era nítido que o que faltava em um, existia no outro; e que o futuro de um, era o reflexo imperfeito do presente do outro. Eles deveriam permanecer juntos, era o óbvio. Mas o medo ainda era capaz de impedi-los, de transformar todo o amor em um fim previsível.
E mesmo sabendo que era difícil fingir, e impossível esquecer. Escolheram a saída mais segura, esquecendo absolutamente tudo e fingindo que nada aconteceu!


Mariana Dandara;

sábado, 25 de outubro de 2008

Aqueles dias voltaram, e como sempre, se foram. E se o tempo realmente passa em uma aceleração descontrolada, e o passado jamais deixa de ser apenas passado, porque tais recordações sempre se fazem presentes? E se você prometeu voltar e ficar, mudando todas as consequências do nosso jogo, porque não volta?


Mariana Dandara;

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

desamor revisitado;

Ele chega com uma de suas novas jaquetas chiques e de longe eu vejo aquele cabelinho de banda suja londrina que eu tanto amei, aquela carinha infantil de “olha, cheguei” que eu tanto amei, aquele olhar de timidez tarada que eu tanto amei… e me pergunto: por que amei tanto e não amo mais?
Ele me aperta como sempre, até que algum ossinho da minha coluna estale, e me diz, como sempre também: “Que é que você tem que eu sempre largo tudo e venho te ver?”
Espreguiço para sugerir desinteresse mas meu coração bagunça tanto que tenho um ataque de tosse. Entramos de mãos dadas no cinema, felizes como se tivéssemos acabado de nos conhecer. Ele me olha sem parar, suspira, a cada movimento que eu faço, cada semblante, cada segundo de raciocínio, ele está lá me observando encantado. Faço um esforço pra tentar me lembrar: por que foi mesmo que eu deixei de amar esse homem? Não faço a menor idéia.
O filme é um lixo, master clichê, mas era o único que tinha e tudo bem: ao lado dele tudo fica divertido. A gente brinca de adivinhar as próximas cenas, adivinhamos o filme todo ao som de “shius” que os humanos limitados fazem, inconformados com aquele casal que tenta boicotar um filme tão supimpa.
Sobra pipoca no dente, colamos pipoca na testa, entra pipoca no sutiã. Cada vez que nossas mãos se encontram salgadas, dentro do saco, a gente brinca de se roçar com os dedos como pernas desesperadas.
Antes da gente chegar ao elevador do seu prédio, ele me oferece as costas e eu subo, o porteiro não entende nada, eu berro de longe: “Sou sobrinha dele.” Adoro essa brincadeira e mais uma vez me pergunto: onde eu estava com a cabeça pra deixar de amar esse homem?
Um banheiro é pra escovar o dente, outro é pra tomar banho e o outro é pra fazer cocô, ele explica. Sinto pena dele sozinho naquele apartamento gigante, quase quero ficar ali pra sempre. Ele mostra que tem todas as minhas músicas prediletas (que eu ensinei a ele) no seu iPod última versão, anda esbarrando pela casa em seus milhares de brinquedinhos e insiste para que eu assista a alguns dos seus vídeos caseiros cheios de bobagens. Ele é um super-homem quando a gente precisa e uma criancinha fofa quando a gente também precisa. Meu Deus, agora faço o maior dos esforços do ano: por que cacete deixei de gostar desse cara?
Chocolatinhos, vinho, som ambiente, escurinhos. Ele pára o mundo todo, se ajoelha no sofá deixando as mãos no meu colo: “Você não sabe a saudade que eu senti todo esse tempo.”
Seus olhos se enchem de lágrima, a música se torna instrumental matando qualquer outra palavra, a cidade não respira, o tempo não existe, a solidão é coisa de gente que mora muito longe dali, minha mente aquieta todos os monstros, as mulheres lindas nas capas das revistas são empilhadas descartavelmente e viram nada, a poluição vira oxigênio puro e cor-de-rosa, o outro homem que é dono sem merecer do meu corpo magoado explode no ar deixando apenas estrelas para iluminar meu recomeço, as dúvidas todas do que fazer pelos próximos mil anos se simplificam porque eu só desejo viver aquele momento, sim, sim, sim, eu quero zerar tudo de antes e de depois e amar esse homem agora, como antes, como nunca. Por que não?
Deitada sem forças e coragem para existir, eu quero tomar o banho mais urgente e demorado do mundo.
Ele agora está na sacada, olhando a cidade e coçando o saco, tentando pegar algum recado no celular, querendo marcar alguma coisa com algum amigo, fala alto, os carros buzinam e se xingam lá embaixo, talvez ele deseje mais do que tudo se virar e não me ver mais ali. A vida idiota voltou e me fez lembrar novamente que continuo uma idiota.
Sua enorme sala inteira chora, todas as plantas, todas as luzes apagadas, todos os CDs empilhados, o carpete caro e fofo, os cantos, o teto, o chão, o ar. Os feixes de luz da cidade entram como espada pela janela e guilhotinam qualquer razão, todo mundo está deitado e decapitado comigo. Todos estão sujos, todos estão ultrapassados e velhos, todos choram a intenção de amor que nunca dura.
A exploração do meu corpo me dá uma sensação mundana de morte pobre e simples, nada de espiritual e eterno ronda minha alma neste momento. Seus restos grudam em mim como tudo de ruim que gruda na nossa memória e nos faz viver cheios de medos e traumas.
Ele me observa frio e concluído da sacada, não se preocupa com o meu frio, com o vazio gigante que me toma novamente e me deixa assim, palidamente assustada e infantil. Ele até tem pena, mas me considera demais para ter pena de mim.
Ele anda mais completo, mais solitariamente feliz, mais homem, mais ereto, mais macho. Eu, corcunda, me enrolo na manta, corro para o banheiro como um bicho cagado, me ajoelho no chão do boxe e deixo a água quente me dizer que tudo bem: não é a primeira vez que você se sente tão perdida, usada, burra e sozinha.
Uso o banheiro do cocô para tomar banho, o banheiro do banho para vestir minha roupa que era feliz até duas horas atrás e agora parece escolhida para velar o defunto, e finalmente, o banheiro de escovar os dentes para mirar meus olhos traídos e esquecidos. Peço desculpas não aceitas a mim.
Antes de chegar à minha casa vejo que ele deixou dois chocolatinhos na minha bolsa, arremesso um deles com ódio na valeta da rua, o outro eu como, afinal, é sempre com a metade de tudo que eu fico porque ninguém nessa merda de vida consegue se dar e ser por inteiro.
Agora me lembro porque deixei de amar você, lembro exatamente porque deixei de amar todo mundo. Lembro que mais uma vez deixei de me amar.



Tati Bernardi.



Selo passado pela Jéssica, muito obrigada!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

que eu te esqueça!

Que eu desconstrua meus pequenos amores, a ciência de me deixar amar sem amargura, e que me dêem a enorme incoerência de desamar amando. E te lembrando - fazedor de desgosto - que eu te esqueça.



Hilda Hist.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

diário;

Ontem passei o dia mascando um silêncio, despindo sorrisos, comendo alguns livros, tragando caminhões, paquerando um sofá, assistindo um céu roxo, cozinhando meus amigos, parindo um suspiro, compondo um telefonema, cutucando o futuro, trabalhando um repouso, sonegando paixões, presidindo formigas, transando com músicas, convencendo meus cabelos, dançando com o chão, pavimentando o ar, aconselhando ondas, vingando as calças apertadas, saboreando o leite derramado, cagando uma fofoca, arquitetando meus sapatos, fugindo do rei, convidando as idéias e celebrando as luzes da rua.
Mas eis que hoje, de tanto mascar, o meu silêncio perdeu o gosto e eu resolvi despir as calças apertadas, parir uma luz, celebrar meus amigos, vingar meu cabelo, dançar num céu roxo (e assistir), presidir o futuro, compor meu próprio chão, aconselhar os livros, arquitetar as ondas, paquerar o rei, pavimentar o repouso, trabalhar as idéias, tragar o ar, saborear paixões, transar os sorrisos, cutucar as formigas, convencer os caminhões, sonegar as fofocas, cagar para os telefonemas, comer um suspiro com leite, pisar no sofá com meus sapatos, convidar as músicas, cozinhar tudo isso e depois fugir.


Luciana Elaiuy.