domingo, 17 de maio de 2009

O salto!

A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato -- pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente -- você acabou de sair da minha casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto –, quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude do beijo de cinco minutos atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas.
Passos improvisados de tango e risadas, no corredor do meu apartamento. Uma festa cheia de amigos queridos, celebrando alguma coisa que não saberemos direito o que é, mas que deve ser celebrada. Abraços, borrachudos, a primeira visão de seu necessaire (para que tanto creme, meu Deus?!), respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar – você me agarrando com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas -- mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquário, um tatu bola na grama de um sítio, algumas cidades domesticadas sob nossos pés, postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias num canto da área de serviço. Então, numa manhã, enquanto leio o jornal, te verei escovando os dentes e andando pela casa, dessa maneira aplicada e displicente que você tem de escovar os dentes e andar ao mesmo tempo e saberei, com a grandiosa certeza que surge das pequenas descobertas, que sou feliz.
Talvez, céus nublados e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncios onde deveria haver palavras, palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não?
Tudo que sabemos agora é que eu te quero, você me quer e temos todo o tempo e o espaço diante de nossos narizes para fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte – sobretudo, talvez, sorte -- quem sabe, dê certo? Não é fácil. Tampouco impossível. E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo -- o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão --, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto.

Antonio Prata.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Obrigado!

Obrigado,
Por ter se mandado.
Ter me condenado a tanta liberdade.
Pelas tardes nunca foi tão tarde.
Teus abraços, tuas ameaças...

Obrigado,
Por eu ter te amado,
Com a fidelidade de um bicho amestrado.
Pelas vezes que eu chorei sem vontade,
Pra te impressionar, causar piedade...

Pelos dias de cão, muito obrigado.
Pela frase feita.
Por esculhambar meu coração,
Antiquado e careta.
Me trair, me dar inspiração,
Preu ganhar dinheiro.
Me trair, dar inspiração,
Preu ganhar di-nhei-ro...

Obrigado,
Por ter se mandado.
Ter me acordado pra realidade.
Das pessoas que eu já nem lembrava,
Pareciam todas ter a tua cara...

Obrigado,
Por não ter voltado,
Pra buscar as coisas que se acabaram.
E também por não ter dito obrigado,
Ter levado a ingratidão bem guardada...

Pelos dias de cão, muito obrigado.
Pela frase feita.
Por esculhambar meu coração,
Antiquado e careta.
Me trair, me dar inspiração,
Preu ganhar dinheiro.
Me trair, dar inspiração,
Preu ganhar di-nhei-ro!


Cassia Eller.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.


Clarice Lispector.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Até que foi bem discreto
deixando, ao partir, intenso
muito do seu segredo
Foi um corte pequeno
nem dor a mais, nem de menos
Foi porque tinha que ir
foi porque tinha que ser.
Mas está aí a cicatriz
que não deixa mais mentir
se foi ou não foi feliz.


(Alice Ruiz e Chico César)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

"Não poderias saber

nada de mais absoluto sobre ela, a não ser ela própria. Fazendo algumas perguntas, tu ouvirias respostas. Nas respostas ela poderia mentir, dissimular, e a realidade que estava sendo, a realidade que agora era, seria quebrada. E pois, não fazendo perguntas, tu aceitarias a moça completamente. Desconhecida, ela seria mais completa que todo um inventário sobre o seu passado. Descobririas que as coisas e as pessoas só o são em totalidade quando não existem perguntas, ou quando essas perguntas não são feitas. Que a maneira mais absoluta de aceitar alguém ou alguma coisa seria justamente não falar, não perguntar - mas ver. Em silêncio."



Caio F. Abreu.

sábado, 25 de abril de 2009

'Um homem para estar completo precisa de varias coisas.
Precisa de alguém para amar, e alguém que o ame, não necessariamente nesta ordem, não necessariamente o mesmo alguém;
Precisa de amigos para cantar, dançar, gritar e chorar;
Precisa de uma família, para escutar e se calar, para abraçar e para suprir necessidades básicas;
Precisa de uma crença, não de uma religião, mas precisa encontrar Deus em algum canto remoto da sua consciência para poder se guiar;
Precisa de uma casa para ter onde voltar a noite, e um objetivo para poder seguir enquanto estiver acordado;
Não precisa saber exatamente aonde quer chegar, mas necessita saber onde ele não pode ir.
Existem homens que fazem do instrumento da sua orquestra, a própria orquestra, e são esses que se perdem no caminho.
Por que temos que saber que o conjunto é que faz as coisas, e a própria vida valer a pena, e não apenas uma parte dele.
Existem aqueles que se apegam a uma religião utópica, sem saber que o que Deus busca no ser humano não é um seguidor, mas sim fidelidade a felicidade interior. E que sendo feliz, estará fazendo feliz todos os que o cercam.
Existe quem busque em drogas, ou em outras pessoas, o que te complete, sem saber que, essas coisas além de não o completarem, aumentarão mais ainda o seu vazio interior.
Existe quem estude como loucos, e acaba no fim que por saber demais, ele esqueceu de estudar coisas básicas, que não estão em livros, como sentimentos que por mais que tentamos descrever não conseguimos.
Existem também aqueles que cultuam tanto a embalagem, e acabam deixando o conteúdo passar do prazo de validade.
Temos que entender, que o que nos faz bem e o que nos faz feliz, não necessariamente fará os outros felizes na mesma intensidade.
E que o dinheiro é uma parte do que nos faz feliz, mas não pode ser durante todo o nosso tempo o nosso objetivo.
Não adianta ter uma boa semente, e um solo podre.
Um dia de nossas vidas temos que viver sobre todas as regras, e no dia seguinte, esquecer todas elas, e fazer a própria regra, e inventar o próprio jogo.
Quem calcula muito, acaba por não saber o valor dos números, e que não calcula, não dá valor a nada.
Temos que encontrar a nossa sintonia, e o que faz a nossa cabeça.
Quem fala muito não diz nada, e quem não fala, não transmite o que quer dizer.
Equilíbrio é uma questão de ponto de vista, cada um tem o seu.
Respeito é a palavra chave, e o certo e o errado também é ponto de vista. Do ponto de vista certo, todo mundo está certo.
E se você estiver feliz, continue. Se estiver triste, abandone.
Não procure culpado, mas ache o problema. Pois se alguém está errando é por que não sabe o que esta fazendo, ou ninguém disse que estava fazendo errado.
Reflita, Sorria, Dance, Grite, Pule, Abrace, Beije.
Se errar peça desculpa, e se errarem tenha calma e perdoe.
Por que afinal, no final, não vai sobrar o que você tinha, mas sim quem você foi, e o sentimento que você proporcionou as pessoas. Não se conforme, Lute pelo certo, lute pelo seu certo.
E saiba que se estiver tudo certo, com certeza tem algo errado.'


Guilherme Carvalho.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Clarice Lispector.

“É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente
arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.”